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Como nos tempos da ditadura: No DF, artista é preso e agredido por ficar nu em apresentação


A criminalização cada vez mais constante dos movimentos sociais, o cerceamento à liberdade de expressão, a crescente do moralismo da “gente de bem” e a intimidação à liberdade artística cada vez mais intensa vêm tornando o Brasil um país muito parecido com o que foi na época do regime militar. Em mais um episódio arbitrário, um artista paranaense foi detido em Brasília (DF), durante sua apresentação teatral, por “ato obsceno”.

Maikon Kempinski atuava em sua performance “DNA de DAN” – que faz parte do Palco Giratório, uma mostra teatral do Sesc – no sábado (15), em frente ao Museu Nacional da República, quando a apresentação foi interrompida pela Polícia Militar e ele, que fica nu ao longo da performance, detido e levado de camburão para uma delegacia. Na 5ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), Maikon precisou assinar um termo circunstanciado de ato obsceno e foi liberado em seguida. No relato em que detalha a abordagem, o artista informa ainda que foi agredido pelos policiais.

Na apresentação, o artista fica dentro de uma bolha plástica e tem aplicado sobre o corpo nu uma substância que se resseca aos poucos, até formar uma espécie de segunda pele. A performance consiste em uma dança, que lembra os movimentos de uma cobra, enquanto a substância seca em seu corpo.

De acordo com a polícia, Maikon foi detido após “denúncias” de que havia um homem nu em frente ao museu. “Como não foi apresentada nenhuma documentação /autorização do museu tampouco da Administração de Brasília, foi determinada a paralisação da referida exposição e foi dada voz de prisão ao elemento nu”, informou a corporação por meio de nota.

A performance “DNA de DAN” já passou, antes de Brasília, por Belo Horizonte, Porto Alegre e Campina Grande sem nenhum problema.

O Sesc informou que só se pronunciará sobre o caso na segunda-feira (17).

Em sua página do Facebook, Maikon fez um contundente relato detalhando o ocorrido. Confira abaixo.

Eu quero agradecer de verdade a todo apoio que recebi aqui nessa rede social. Nunca esperei por isso. Apoio que veio de artistas, amigos e colegas de profissão. De gente que eu nem conheço. Apoio de pessoas que já viram a performance “DNA de DAN” e de pessoas que não viram, mas que acreditam na arte como forma de expandir as visões e atuar no mundo. Porque não se trata de mim apenas ou do meu trabalho, o que aconteceu ontem é um sintoma do grande cadáver que fede há tempos por aqui. E outros artistas já passaram por coisa parecida. Em Curitiba, um dia antes, a Casa Selvática foi invadida por policiais. E talvez coisas assim se repitam, sabe-se lá até quando. Nesse milênio high-tech e tão neomedieval.

Ontem, dia 15 de julho, eu, junto com Faetusa Tezelli e Victor Sabbag, comecei essa performance em frente ao Museu Nacional, em Brasília. Digo comecei porque ela não chegou ao seu término, pois fui agredido por policiais e detido por ato obsceno. E ainda faríamos uma segunda apresentação deste trabalho naquele mesmo local no dia 16 seguinte. Estamos desde abril viajando por várias cidades do país apresentando esta obra, que foi selecionada por uma equipe de curadores de todo o Brasil para viajar junto com outros trabalhos dentro do circuito Palco Giratório do SESC, que neste ano completa 20 anos de existência.

Pra quem não sabe, o Palco Giratório é o maior circuito de artes cênicas do Brasil, quando anualmente grupos e artistas podem apresentar seu trabalho fora de seus estados de origem (isso nunca interessou realmente aos governos, não é mesmo? mas ao Sesc interessa). Pois bem, é no contexto desse evento que eu ia performar em frente ao Museu Nacional. E foi em frente a um museu de arte que eu e minha equipe fomos agredidos sem oportunidade de diálogo ou explicação.

Antes de contar o que aconteceu, vou falar sobre a obra em questão, pois é ela que carrega em si a suposta obscenidade. Esse trabalho estreou em 2013 em Curitiba, com apoio de um prêmio da Fundação Nacional de Artes. Lá, fizemos 10 apresentações ao ar livre, no bosque atrás do Museu Oscar Niemeyer. E nunca fomos impedidos ou atacados por isso. Depois, circulamos por várias cidades, tendo o apoio de instituições como a Funarte, o Museu de Arte Moderna do Rio, o Memorial Minas Gerais, a Casa de Cultura de Belém, o CCBB etc. Essa performance já foi feita em praças e ruas, universidades, centros de cultura, galerias.

Nela, eu fico nu dentro de um ambiente plástico que se infla de ar. Uma substância líquida é passada em meu corpo e durante 3 horas fico imóvel com ela secando. O público só entra na bolha após a secagem da substância, para acompanhar a minha transformação corporal quando começo a me movimentar. Por questões próprias do trabalho, só entram ali dentro pessoas maiores de 16 anos. O trabalho tem esse paradoxo: um ambiente quase transparente que separa mundo exterior de interior. E é ali dentro que essas pessoas, que escolheram entrar, estão próximas de meu corpo. Já vimos crianças pararem de fora encantadas com a bolha e com o “boneco”, elas não veem nada sujo ou condenável, porque a merda está na cabeça dos adultos, não está nessa performance. É um rito de nascimento e morte. É um corpo imóvel e exposto em sua fragilidade durante 3 horas, sem mover um membro sequer. Nascemos nus, quando chegaram aqui os colonizadores encontraram pessoas nuas, a terra comerá nossa nudez. Mas muitos não querem se lembrar disso. Para alguns, a nudez só é um espelho incômodo de seus preconceitos e bloqueios.

Estava eu imóvel no centro da bolha, coberto com essa substância (mais um paradoxo, minha pele está sim coberta, mas de transparência), que começava a secar. Quando ouço vozes de um grupo de policiais militares ordenando que a apresentação fosse encerrada, com falas como “isso vai parar de qualquer jeito, caralho”, “tira esse cara daí”, “que porra é essa”. Enquanto isso, Faetusa e Victor tentavam dialogar com eles, mas sem escuta alguma. Eles não queriam saber o porquê daquilo estar acontecendo ali, o que significava, qual o contexto. Tínhamos a permissão e o apoio do Museu Nacional para estar ali, ou seja, um museu ligado ao Ministério da Cultura, e éramos contratados do Sesc. Até esse momento, eu pensava parado “logo o produtor do Sesc vai explicar a eles e esse mal entendido vai acabar”, continuaremos o trabalho. Porque duas outras vezes já tivemos a aproximação de policiais, mas após a explicação eles entenderam se tratar de uma obra de arte e nos deixaram continuar sem que parássemos. Se eu me mexesse, como eles mandavam, todo o trabalho de 2 horas que tínhamos feito até ali estaria perdido, pois a substância se desgrudaria de meu corpo e não teríamos como recomeçar o processo. Até aí, eu não me mexi, continuei em “performance”, como sempre faço, não reagindo às reações externas. Eu esperava que alguém do Sesc falasse com os policiais, mas justo neste momento o produtor tinha ido resolver um problema técnico e não estava no local para mediar. Foi então que os policiais chutaram e rasgaram nossa instalação de plástico, e tentaram entrar nela para me tirar à força. Um dos policiais entrou levantando a mão na intenção de me dar um soco. É assim que agem 10 homens diante de uma pessoa nua, imóvel dentro de uma bolha, em completo silêncio e desarmada? Neste momento, eu tive que me mover e gritei muito alto que ele não iria encostar em mim, pra ele não me tocar. A performance havia acabado ali. Eles então recuaram, mas o estrago estava feito, a bolha simplesmente rompeu-se esvaziando. Eles queriam que eu saísse para fora da bolha para que me levassem detido, mas eu só iria sair dali depois que o representante do Sesc chegasse, pois eu não iria para uma delegacia nu, coberto com uma substância grudenta, numa cidade que eu não conhecia, e sozinho. Eu falei que só sairia dali quando o representante do Sesc chegasse. Eu ainda estava tentando manter o mínimo de dignidade possível. Eles não entendiam que eu não estava apenas nu, mas coberto com uma substância gosmenta que começava a secar. Eles não queriam ver isso nem nada. Faetusa foi buscar uma toalha e tentei tirar a substância, mas ela já estava grudada, só sairia com água quente. O Victor me trouxe roupas e as coloquei por cima da substância mesmo. Eu já não estava mais nu e a performance não continuaria. Mesmo assim, eles ainda não estavam satisfeitos, queriam me levar. Eu só saí dali de dentro quando o porta-voz do Sesc chegou ao local. Pois eu fui contratado para estar ali, eu estava realizando o meu trabalho para uma instituição idônea e respeitada em todo o Brasil. Eu vi nos olhos dos policiais que eles sabiam que aquilo não era um ato obsceno, mas eles já tinham feito o estrago, já havia cerca de 10 homens no local, e eles não iriam admitir que não tinham razão, que tinham errado. Eles usavam o código penal pra justificar toda aquela violência. Eles precisavam ir com o joguinho deles até o fim. Foi então que um dos policias, um sargento, me deu uma chave de braço e sem esperar que me trouxessem meus documentos ou sapatos, me carregou para os fundos de um camburão apertado, como um criminoso. Na delegacia, mandou que eu ficasse em pé olhando para a parede, enquanto registrava o ocorrido. Ainda tive que ouvir as piadas dos funcionários, rindo até do meu nome, da situação e comentando que aquilo não era arte. Resumindo: vou ser intimado a me apresentar diante de um juiz e responder a um processo por ato obsceno.

O produtor do Sesc chegou logo em seguida à delegacia, pois ele também foi autuado, mas apenas a mim foi imputado crime. O Sesc vai me dar total apoio com advogados, assessoria e gastos com manutenção do cenário. Mas ficou um gosto amargo por ver pessoas tão surdas destruirem meu trabalho e me agredirem em nome de uma suposta moralidade e um código penal obsoleto (e que deveria ser revisto, afinal, obsceno é se masturbar num vagão de metrô lotado, fazer sexo em público, coisas das quais este trabalho não trata). Não houve diálogo algum. Eles não iam deixar que um cara magrelo, pelado e gay não os obedecesse em público. Havia 2 motos com sirenes escoltando a viatura que me levava em alta velocidade pelas ruas de Brasília. 10 homens pra me escoltar, eu, tão perigoso. E depois eles estavam todos ali, os policiais, na frente da delegacia, rindo sem fazer nada durante uma hora enquanto eu aguardava em pé virado com a cara pra parede. Sem falar que no meio disso tudo eu ainda consegui rir do absurdo, pois um dos escrivões estava dormindo sentado diante do computador. Era tudo muito triste, ridículo e patético.

Eu desejo que, mesmo depois disso tudo, o Sesc continue com essa coragem de apoiar trabalhos artísticos de todos os estilos e discursos, como sempre fez ao longo dos anos. Porque o Sesc faz pelo Brasil um papel importantíssimo de fomentador cultural, papel que deveria ser do governo, sem restringir o pensamento de artistas e público. O Sesc quer cidadãos mais conscientes, e por isso apoia todas as formas de arte. Eu escrevo porque não quero que outros artistas, que têm a coragem de dar forma às suas visões, sejam no futuro boicotados. Pois sei que uma situação como essa acaba sendo usada como bode expiatório por pensamentos retrógrados, que falam “tinha que prender mesmo”, “mereceu”, “tava pedindo por isso”, “isso não é arte, é lixo”, “tinha que gastar dinheiro em saúde”, “esses artistas são uns vagabundos”. Pois eu digo que eu não estava afrontando a moral combalida das pessoas, mas sim oferecendo uma outra visão de mundo, mesmo que por um instante, efêmera. Uma visão que confronta justamente isso, a insensibilidade ao que está em volta, ao que carregamos dentro, ao outro, a tudo que podemos ser mas nos é vedado. E não me venha com esse papo hipócrita de que o dinheiro que é gasto com “esse tipo de arte” deve ir pro SUS. Porque arte é saúde, sim, saúde mental, de espírito, arejando esse mundo que apodrece sob os seus narizes e o qual vocês tanto defendem porque se reconhecem nele. E todos sabemos por onde corre a grana de verdade. Porque arte não é luxo, mas alimento pra nossos espíritos, vital como uma transfusão de sangue, uma curetagem no útero, um tratamento psicológico, um detox no seu cérebro cansado. Fiquem com sua arte que eu fico com a minha. Ou fiquem com todo esse lixo que vocês acham que é ouro. Se eu estou nu dentro de uma bolha e isso machuca sua sensibilidade, vire seu rosto para o outro lado e passe reto, assim como fazemos com o mendigo na calçada, com a mulher que apanha do marido, com a merda dentro de nós. Tenham ao menos a coragem de entrar e sentar naquela bolha depois que eu fico 3 horas parado e daí venham falar comigo, isso se ainda tiverem algo pra falar depois do que vocês vão ver. Porque eu sei que eu vou tirar todas essas palavras pobres da sua boca faminta e vou fazer você engoli-las de volta com um único olhar que vai atravessar o seu crânio. E farei isso sorrindo. E você nem vai saber como aconteceu. Porque podem me prender, podem armar esse circo tirânico, patético e nojento. Esse é o gozo dos miseráveis e dura pouco, é seco e previsível. Podem me colocar diante de um juiz. Eu sei que eu não fiz nada de errado nem nada pelo qual eu deva me envergonhar. Eu estava trabalhando, e minha função é essa: perturbar a paisagem controlada dos sentidos. O meu corpo afronta os seus canais entupidos, o seu ódio contido, mesmo estando parado. Porque vocês nunca vão me controlar e eu pagarei o preço, eu sei, eu sempre paguei. Porque parado ali, nu, imóvel no meio da praça, suas vozes me atravessam, suas piadas estúpidas tentam me derrubar, sua indiferença me faz rir, seu embaraço me dá dó, mas eu continuo em pé, enquanto vocês vão logo sentar carregando sacolas e bolsas. São vocês que ficam nus diante de mim. Enquanto muitos levantam da cama graças aos antidepressivos, correndo de dívidas e fantasmas, eu estou em pé, carregando toda a dor que atravessa e rasga meus nervos e músculos até virar um êxtase secreto e passageiro no meio do cerebelo. Mas há também aqueles que param seu caminho e tentam decifrar. Eu me abro pra eles e nos comunicamos. Há aqueles que se encantam e se perguntam, mesmo que por um instante, o que está acontecendo, isso é real, como é possível, que horror, que coisa idiota, por que ele faz isso, isso é humano? Que entram na bolha comigo e procuram os meus olhos. Que querem se abrir ao que está ali, diante delas, absurdo mas cheio de sentido, improvável mas tão real. E quem se abre não é ferido, quem se abre não precisa atacar. É então que, ali, a arte acontece.

É um risco, eu sei, estar na rua. E por isso sempre voltarei a ela. Porque as coisas não acontecem apenas nas quatro paredes, nos aplicativos secretos de sexo, nos grupinhos de WhatsApp, nas alcovas de negociatas, nas reuniões secretas entre políticos indefensáveis, mas também são expostas ali, onde todo mundo passa e ninguém quer ver. E estou apenas imóvel, enquanto outra pele nasce sobre mim, respirando, tentando não sucumbir à gravidade, enquanto policiais gritam e querem me dar um soco. Impotentes no poder. É horrível ver alguém se dar ao luxo de estar ali, despido, como se é de verdade. Realmente, isso deve ferir, instigar o ódio, a raiva daqueles que não podem livrar-se de tanto peso, isso é obsceno demais.

E a eles eu digo: esse ódio todo é de vocês. No fundo, eu via um bando de coitados armados, fazendo um teatro escroto que parece agradar a alguns recalcados e guardiões dos cadeados da moral fundada no medo. Era a oportunidade perfeita para exibirem sua truculência com todo o virtuosismo. Mas tem lugar pra todo tipo de arte nesse mundo, até pra aqueles que não têm talento nenhum pra viver. Mas eu continuo em pé, trocando de pele mais uma vez, diante de todos e de tudo.

Da Redação 
Com Revista Forum 

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