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De mestre escola a Presidente (3)


Sobre o que marcou o governo de Solon de Lucena, no interior, já fiz menções ligeiras. Na Capital, além do início das obras de saneamento, seu governo é lembrado pela ação da prefeitura, através do prefeito Walfredo Guedes Pereira, mesmo quando as verbas eram estaduais. É desse tempo a Praça Vidal de Negreiros e a atual avenida Guedes Pereira. O Parque Arruda Câmara (Bica), a praça da Independência  e a avenida Maximiano de Figueiredo que abriu caminho para uma nova cidade, em direção ao mar. A Lagoa dos Irerês, cercada pelo parque que receberia o nome de Solon de Lucena, não ganhou, de logo,  a feição que encanta os visitantes há muitos anos. A Guedes Pereira se deve a iniciativa de criar o parque e desapropriar os terrenos. A arborização foi obra do prefeito João Mauricio de Medeiros, no período de  João Suassuna e a urbanização, foi iniciada no governo de Argemiro de Figueiredo quando era prefeito Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Melo. À época, não se falava ainda em preservar o patrimônio histórico, daí Guedes Pereira não ter se apiedado de algumas de nossas antigas igrejas, como a das Mercês, do Rosário e Mãe dos Homens, derrubadas para abrir passagem a novas avenidas. Esses templos ressurgiriam em novas versões.

A Paraíba de Solon de Lucena, por motivos óbvios, foi a grande beneficiária da obra de Epitácio Pessoa. Ao assumir a presidência da Nação, o ilustre paraibano prometeu eliminar o crime que se cometia contra o nordeste, deixando-o entregue à própria sorte ou à má sorte. Desse propósito surgiriam as Obras Contra as Secas quando o governo federal conseguiu aplicar mais de dez por cento das suas receitas em açudagem, estradas de ferro, de rodagem, e portos. Destaque-se que o polígono das secas de então não alcançava a Bahia e Sergipe, sobrando benefícios para o Ceará e à Paraíba, principalmente. “Nunca se vira tanto serviço público de u ma só vez”, admira-se Osvaldo Trigueiro em, “A Paraíba na Primeira República”. Para ele, depois do governo de Epitácio “passamos a nos sentir mais brasileiros”.  Em três anos, a face da Paraíba mudou  e o sertão integrou-se ao restante do nosso território. O transporte que, até então, era feito no lombo de burros, já se fazia de automóvel ao serem concluídas as estradas que cortariam o estado, mesmo de má qualidade. Epitácio cumpriria sua promessa de tentar melhorar a vida do nordestino. Teve, porém, que conviver com a “desonestidade de uma época”, como lamentaria Apolônio Nóbrega, em Historia Republicana da Paraíba.

A corrupção no Brasil vem desde o descobrimento. Os donos das terras descobertas por Cabral – os índios, foram os primeiros corrompidos pelos portugueses, ávidos de encontrar pedras preciosas. Em troca de bugigangas, os índios facilitaram a vida dos colonizadores. O nepotismo, outra praga nacional, já está na carta de Pero Vaz de Caminha, quando pede proteção a El Rei para seu genro desterrado e  que merece voltar à Corte. No Império a proteção dada por Pedro II às empresas do Barão de Mauá, daria fôlego a muitas CPIs. E o Banco do Brasil, cujo capital, D.João VI levou na bagagem no seu retorno a Portugal? Na Velha Repúblic a como na Nova, o costume de tirar vantagem do poder, seria arraigado às nossas entranhas. Tanto Epitácio como Solon tiveram seus esforços pelo desenvolvimento do nordeste embaraçados pela ação malfazeja de correligionários e até alguns parentes, não se registrando a participação ou o conhecimento pessoal deles nos desvios apontados nas obras contra as secas. Os erros resultaram da forma de contratação da obra, concedendo-se dez por cento ao executor, de modo que, quanto mais se gastasse na obra, mais ganhava o empreiteiro. Não havia orçamento prévio.

Para explicar melhor essas ocorrências e a sua gravidade, passo a palavra ao autorizado Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Mello: “E o pior era que os contratantes dos trechos de estradas não eram empresas especializadas, porém os doutores e coronéis da política, a quem o governo dava, de mão beijada, dez por cento sobre o custo das obras.Eram administradores que nada entendiam de engenharia, não entravam com um centavo de capital, não corriam qualquer risco no empreendimento.Porque os serviços eram organizados e dirigidos pelos funcionários das Obras Contra as Secas, de sorte que tudo o que os supostos administradores faziam era receber a generosa comissão”. Para o mes mo autor, era uma espécie de “loteria de bilhete premiado”contemplando os apaniguados do poder dominante. E conclui, argumentando que, se no Império os chefes das missões diplomáticas recebiam comissões sobre os empréstimos que negociavam, não há por que se admirar que no Nordeste, fossem admitidos como legítimos os prêmios que o governo oferecia aos amigos, tudo devidamente formalizado. A propina, então, era  legalizada.

Tanto Solon, que morreria um ano após deixar o governo,  como Epitácio, que nunca mais voltou à Paraiba,  assumiram o executivo sem experiência administrativa anterior. Homens de gabinete, desconheciam os caminhos tortuosos das execuções de suas ordens. Em conseqüência, a honesta e extraordinária decisão de ambos, no caso das obras contra as secas, foi  tolhida pela ambição desmedida e  desobrigada de critérios de alguns áulicos do poder, ávidos em enriquecer ilicitamente. Como se vê, só há uma  diferença entre o passado e o presente: a corrupção antes era em preto e branco, agora, é ao vivo e a cores.

Ramalho Leite
Jornalista/Ex-Deputado – Colunista

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