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Caminho de Felicidade


A Oração Eucarística V, dita Oração Eucarística de Manaus, faz o Povo aclamar por duas vezes: “caminhamos na estrada de Jesus”. Penso que a compreensão dessa bonita aclamação se ache no próprio Jesus que se tornou ele mesmo o caminho (eu sou o caminho…Jo 14,6).

Ele fez-se caminho que caminha e, ensinando-nos a caminhar mostrou-se companheiro de estrada de uma humanidade deprimida e sem esperança para fazê-la encontrar o sentido da vida ao saber ler os sinais de sua Presença viva e operante (Lc 24,13s).

Caminhar na estrada de Jesus, caminhar em Jesus, percebê-lo entre nós reanima-nos, o coração arde e o mundo se transforma numa via de felicidade: não ardia o nosso coração? E voltaram para contar aos outros como tinham visto e reconhecido o Senhor … (Lc 24, 31-33)

A felicidade demonstra-se um itinerário que desinstala, faz sair, impulsiona; torna-se um modo de viver transmitindo as alegrias experimentadas.

A estrada da felicidade – Cristo é a felicidade – certamente nos desafia, adquiri-la é vender tudo que se possui para comprar a pérola preciosa e o tesouro escondido no campo. (Mt 13,44-46)

Um passo depois do outro é o método mais eficaz para o desapego, para o desfazer-se de certos bens que tornariam a estrada insuportável. Nesses casos o desapego mostra-se como atitude de amor, posto que só por amor se pode trocar as várias possibilidades de caminho, pela única possibilidade que vale a pena.

São Paulo dá, na Primeira Carta aos Coríntios 13, um definição poética e hínica dessa estrada de felicidade, estrada de amor: o amor é paciente, não é invejoso, não incha de orgulho, … tudo crer, tudo espera, … mesmo que eu vendesse todos os meus bens (há quem os venda sem amor e por interesse egoísta) e doasse aos pobres, mesmo que eu entregasse meu corpo às chamas (há quem o faça por pura exaltação de seu narcisismo) sem amor eu seria nada.

Somente o amor nos coloca a caminho. O Papa Joao Paulo I, numa catequese sobre o único absolutismo que se admite (amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (Mt 22,34-40), narrou o diálogo entre ele e seu professor de filosofia:

– Se eu te perguntasse, disse o professor: – “conheces a torre da igreja de São Marcos em Veneza?”

Tu me responderias: – “sim, conheço!”

Então esse é um conhecimento intelectual. E explicava:

– Esse tipo de conhecimento traz à tua mente, como se fosse um retratinho, a torre de São Marcos. Agora se eu te disser: – “tu amas a torre de São Marcos?” e continuou: A coisa muda. O amor te levará a Veneza, até a Igreja de São Marcos, teu coração se dilatará… sabes porquê? por que quem ama voa, corre, se alegra. Amar significa viajar correr com o coração para o objeto amado. (narro com minhas palavras trecho da Audiência Geral, 27 de setembro 1978)

A Ir. Míria T. kolling na música Peregrinos a caminho … inspirada em Santo Agostinho diz: quem ama asas tem nos pés!

A estrada do amor traz felicidade e alegria por ser a estrada de um Outro, a estrada de Jesus; somente o Outro me autentica no meu amar, e por que me ama deseja e quer que eu permaneça sendo eu mesmo para que ele mesmo seja amado.

O “amor” que anula o Outro e os outros não pode ser amor, não é estrada de felicidade, é narcisismo egoíco. Amores doentios que não desapegam e não libertam não conduzem aos espaços largos da felicidade. É importante termos diante dos olhos o amor de Deus-Jesus para aprendermos o caminho da felicidade, do verdadeiro amor: tirou-me para um lugar espaçoso, livrou-me por que me amava [Sl 18(17), 20].

Desconfio do amor fácil, da estrada de pseudoamor, há quem proclame “te amo” com tanta facilidade e em meio a tantas juras que quem o escutar não pode livrar-se do ditado popular: quanto mais jura mais mente.

A estrada de Jesus na qual nós queremos caminhar, em tempos de selfie (si mesmo), nos indica sacrifício em favor dos outros, pôr-se em caminho numa direção que não seja “si mesmo”.

A prova de que Deus nos ama é que seu filho morreu por nós quando éramos ainda pecadores (Rm 5,8). Sacrifício, doação, entrega, ação de graças, louvor, alegria, felicidade!

 

Padre Elias Sales de Souza
Pároco de Nossa Senhora do Rosário
Cuitegi-PB

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