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Nuances do Silêncio


Silêncio é um tema grandioso; podem-se fazer sobre ele monografias, teses, livros….; Proponho-me a fazer um artigo e logo deparo-me com um dilema: escrever, falar do silêncio é já quebra-lo, torná-lo e fazê-lo deixar de existir; o silêncio por certo aspecto se assemelha à virtude da humildade, difícil de encontrar, de perceber, é como se fosse um dom ou se quisermos uma qualidade rebelde, que ao se ultrapassar seus finíssimos e quase imperceptíveis limites, já os perdemos deixando de ser humildes e silenciosos.

Mesmo tênues, as qualidades da humildade são perceptíveis; a humildade é translúcida, cândida e transparente, é uma virtude e ao mesmo tempo um dom; é virtude enquanto ao ser praticada ela se robustece, fortalece, é viril e, é dom por ser presente gratuito de Deus, a humildade não é propriedade de quem a pratica; nenhum humilde se gloria disso mas glorifica ao seu doador (“a minha alma glorifica ao Senhor …” Lc 2, 46-55).

O silêncio por sua vez é ambíguo, podendo ser virtude ou vício, uma qualidade ou um defeito; O silêncio pode ser uma estratégia benéfica ou maléfica, pode ser sabedoria ou esperteza; o silêncio pode ser esplendor de bondade ou crueldade, e pura omissão.

O que diz cantando o Padre Fabio de Melo, na canção Perfeita contradição (CD Deus no esconderijo do verso): “nem toda reza é santa, nem todo escuro é breu ….” eu o aplico ao silêncio: nem todo silêncio é bom, santo….

Silêncio na sua polivalência pode ser grito, pode ser ironia e até sarcasmo. Meu avô tinha um ditado popular que trás o silêncio como resistência a situações ou sistemas contra os quais nada se pode (e se pode, fazer silêncio é também poder): “fui ao mato cortei um cipó, torci bem torcido, calado é melhor”; silêncio por vezes revela total desinteresse, imaginemos quantos guardam silêncio para não se comprometer com o bem, com a justiça, com a partilha das riquezas; o silêncio pode ser ainda total interesse ou compromisso, muitos silenciam por estarem comprometidos (com coisas boas ou não).

Muitos são obrigados a fazer silêncio, o Servo do Senhor em Isaias 42, 14: “por muito tempo me calei, guardei silêncio…” e logo em seguida ele afirma que isso acabou, ele vai falar para estabelecer uma nova ordem; o silêncio é fruto em certas ocasiões da certeza de que “os obstinados não se convencem nem com bons argumentos” (o silêncio de Jesus diante de Herodes…); é também o silêncio desprezo, indiferença.

Há os que se calam por convicções místicas e outros por serem pouco ou nada místicos; muitos se calam por medo de expor o próprio coração; as sepulturas são silenciosas e no entanto … Jesus mesmo diz que a boca fala da plenitude do coração (Mt 12,34).

Em Gêneses 1, 2, antes que Deus quebrasse o silêncio o que existia era o caos; então Deus falou, Deus disse e as coisas todas foram criadas, em beleza e bondade; os profetas receberam de Deus a palavra (Isaias, Jeremias, Ezequiel…) para transformar o seu povo. Na plenitude da história Deus pronunciou a sua Palavra definitiva, o Filho Jesus (Gl 4,4; Jo 1, 1;14) e tudo se recria; e em Pentecostes o Espírito Santo se manifestou num vento impetuoso e em línguas de fogo (At 2,1-4) e “o Espírito de Deus é um espírito de paz que nos dá um coração simples e uma mente serena”(CD Jesed); até mesmo quando se manifestou ao Profeta Elias no Horeb foi por meio do murmúrio de uma brisa suave (1Reis 19, 12), ouviu-se uma brisa…

O silêncio é ótimo quando é abertura e capacitação para o diálogo, no sentido de escutar com atenção o Outro e os outros; a escuta nos interpela, pede uma resposta que fale, que concorde ou consinta, ou mesmo descorde e dessinta, para tanto até o silêncio se usa eloquentemente, sempre para o bem, um bem não egoístico, o bem de todos.

Pe. Elias Sales
Administrador Paroquial de Cuitegi/PB

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