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Tragédia da Lagoa: o doloroso drama de João Pessoa completa 40 anos


zzzz1 zzzz2Nuvens pesadas pairavam sobre a vida e a sorte do país em 1975, um ano depois de haver o general Ernesto Geisel assumido a Presidência da República com o anunciado desejo da transição do regime ditatorial para a democracia.

A abertura política “lenta, gradual e segura”, assim prescrita, iniciava-se num momento de profunda insatisfação popular. Findava-se a temporada do milagre econômico, a crise do petróleo abalava o mundo e ao Brasil faltavam os recursos para a máquina administrativa e os meios de produção dependentes, como nunca, de empréstimos internacionais que minguavam a cada novo dia.

A oposição – já dona de quase 60% do Senado, de metade da Câmara dos Deputados e da maior parte das grandes prefeituras – não era a única preocupação dos ocupantes do governo central. Além disso, o general presidente, à frente da ala mais branda das Forças Armadas, ainda tinha que lidar com os destemperos da turma da linha dura. Não eram poucos, em razão de tudo isso, os esforços governamentais para captar a simpatia e a confiança dos brasileiros, em todos os quadrantes nacionais.

Naquele agosto de 1975, a Semana do Soldado, no coração de João Pessoa, certamente também atendia a esse propósito. As comemorações iniciaram-se com a exposição de material bélico no Parque Solon de Lucena, onde os visitantes recebiam de militares simpáticos e solícitos quaisquer informações requeridas sobre armas e equipamentos de guerra ali instalados a céu aberto.

O sol do dia 24 já quase se punha quando a tragédia se deu. A Portada M-2 disponibilizada pelo Exército ao passeio de jovens e adultos afundou nas águas da Lagoa ao cabo de algumas voltas com grupos renovados de passageiros.

Estarrecida e sem meios para o socorro aos que morriam, a multidão, em volta do lago, transformava-se em plateia da mais sentida tragédia urbana da história da cidade. Recolhidos todos os cadáveres, uma João Pessoa perplexa e enlutada sepultava, nos dias seguintes, 35 pessoas em meio às quais, 29 crianças.

Houve decreto de luto oficial por três dias baixado pelo então prefeito Hermano Almeida e manifestações sucessivas de pesar, uma delas assinada pelo general de brigada Galileu Gonçalves Machado, comandante do 1º Grupamento de Engenharia e Construção, a unidade do Exército responsável por aquilo que deveria ser a festa ao soldado brasileiro.

Não se sabe de nenhum outro acontecimento capaz de levar a Paraíba, de modo tão indesejável e doloroso, às capas de todos os jornais e revistas do país, ao noticiário da televisão e, ainda, durante semanas, às ondas do rádio.

Isso, de certo modo, facilitava o trabalho da imprensa local a quem eram sonegadas, com resquícios vigentes, ainda, da censura militar, as primeiras declarações oficiais. O peso de veículos como o ‘Jornal do Brasil’, ‘O Globo’, ‘Estado de S. Paulo’, ‘Folha de São Paulo’, ‘Veja’ e ‘Manchete’ contribuiria para a emissão de uma Nota do Exército.

Nela, o comando do Grupamento atribuía o incidente trágico e lamentável ao pânico gerado entre os ocupantes depois que alguém alarmara que a embarcação estava a fazer água. Com o desequilíbrio do peso, maior em um dos lados, o afundamento foi inevitável.
IndenizaçõesHoje, essa história de dor, aflição e revolta também pode ser em parte conhecida por quem se dispuser a consultar o capítulo “Registros Históricos” produzidos pela Comissão de Gestão Documental da Justiça Federal na Paraíba.

Trata-se de material com farta documentação fotográfica e testemunhos decisivos para o julgamento de processos de indenização movidos contra a União por famílias enlutadas.
Testemunha ocular do caso e o primeiro a noticiá-lo na emissora onde então atuava, o jornalista Gilvan de Brito, também autor do livro ‘Opus Diaboli – A Lagoa e Outras Tragédias”, conta, assim, o que viu:

“O barco saiu das imediações da rua Getúlio Vargas para dar uma volta no sentido horário em torno da fonte luminosa localizada no centro da circunferência da Lagoa e voltar ao ponto de partida. De longe não víamos sequer o lastro da embarcação, tal o número de pessoas que a superlotava. Mas todos se mostravam alegres (…) O sol descia e as águas já escureciam pela diminuição da luz no Parque Solon de Lucena (…) E o perigo se fez presente. Depois de percorrerem boa parte da viagem, talvez um terço, quando já se encontravam no local mais profundo, na direção do sangradouro, as pessoas em terra começaram a se preocupar quando observaram que o barco parecia desaparecendo. Então se ouviam gritos vindos da embarcação que assustaram a todos os que se encontravam à margem da Lagoa. O barco estava realmente afundando (…) Os apelos de mãos levantadas e de gritos histéricos em direção às pessoas à margem eram ouvidos vindos da embarcação”.

Os cortes no texto, indicados por parênteses e reticências, assim aparecem no apanhado da Comissão de Gestão Documental da Seção Judiciária da Paraíba que, em 2011, descartou, para fins de registro, 4.554 processos e manteve outros 1.326 sob guarda permanente. Para isso, o grupo se valeu da resolução 23/2009 do Conselho da Justiça Federal e, não menos, da Recomendação 37/2011 do Conselho Nacional de Justiça.

Prossegue, assim, o relato de Gilvan: “Ainda se podiam ver as pessoas sobre o barco que não se afundara totalmente, mas já se viam algumas apenas do joelho para cima. Pais empunhando criança para o alto, adultos e crianças maiores ainda se encontravam no barco meio afundado. E, aos poucos, estes foram desaparecendo com as que ficaram se debatendo nas águas. Era o caos (…) Então, começou a chegar o Corpo de Bombeiros (…) E os bombeiros não paravam de retirar as vítimas”.

Consta do arquivo da Comissão de Gestão Documental que a União, “após a via crucis de parentes em busca de reparação judicial”, foi obrigada ao pagamento de pensões “segundo critérios definidos em cada situação”. Algumas, em moeda da época, foram fixadas em 2.796,98 cruzeiros.

O acidente com a barca na Lagoa ocorreu no final da tarde de 24 de agosto de 1975, dentro das festividades do Dia do Soldado. Morreram na tragédia 35 pessoas, sendo 29 crianças. O desespero foi total.

Presente no local, o historiador Gilvan de Brito saiu em disparada para a Rádio Tabajara para anunciar, nos microfones, o ocorrido da Lagoa, e pedir ajuda ao Corpo de Bombeiros e a quem mais pudesse ajudar. As cenas foram de terror: crianças sendo retiradas das águas turvas e sendo colocadas lado a lado em cima da grama da Lagoa. A cada resgate, uma dor, uma angústia, uma lembrança que dificilmente será apagada da memória das pessoas que lá estavam. O fato parou a cidade, que se fechou em luto. A tragédia estampou as capas de jornais estaduais e nacionais.

A barca utilizada para os passeios, que duravam em média 20 minutos em torno da Lagoa, havia sido emprestada pelo 7º Batalhão de Engenharia de Combate de Natal (RN). Em nota oficial publicada pelo 1º Grupamento de Engenharia um dia após o fato, constava a informação de que a barca tinha capacidade de 8 toneladas. A mesma embarcação tinha sido usada no ano anterior, com o mesmo fim.

Da Redação
Com Jornal da Paraíba

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